Porque “é fundamental denunciar a violência contra as mulheres e a lesbofobia”: O Assassinato de Patricia Wright, Charlotte Reed e o seu filho, Benny Wright

Há uns posts atrás prometi que voltaria a falar do triplo homicídio cometido por um trans activista proeminente, Dana Rivers, que vitimizou um casal de lésbicas, Patricia Wright e Charlotte Reed, e um dos seus três filhos, Benny Wright.

Achei que o primeiro post que fazia sobre a situação devia ser um que honrasse as três pessoas cujas vidas foram tão brutalmente terminadas. Achei por bem que o primeiro post servisse para as recordar, já que todos os artigos que até agora encontrei sobre o caso gastam mais tinta a pintar o Rivers em boa luz do que a fazer-lhes justiça. Porém, é indispensável falar precisamente desta tendência preocupante de listar todos os feitos do Rivers em vez de o tratar como o assassino que ele é.

Começo então por referir os factos do crime.

A polícia foi chamada à cena do crime, a residência de Patricia Wright e Charlotte Reed, por volta das 12:21 da manhã de 11 de Novembro depois de terem recebido relatos de tiros. Rivers foi apreendido armado ao tentar fugir da cena ainda coberto do sangue das suas vítimas na mota de Charlotte Reed.

A polícia encontrou Benny Wright morto à porta de casa. O consenso entre as várias fontes que têm vindo a reportar o caso é de que ele terá sido baleado. Dentro de casa a polícia encontrou as mães de Benny, Patricia Wright e Charlotte Reed. Ambas foram esfaqueadas e baleadas. Antes de ser apreendido Rivers terá tentado pegar fogo à residência de modo a encobrir o seu envolvimento mas o fogo, tendo ficado circunscrito à garagem, foi facilmente controlado.

Existem conflitos relativamente aos motivos por detrás deste ataque. Foi avançada a possibilidade de se ter tratado de conflitos de propriedade.

Estes são os factos.

Como comentei anteriormente na reportagem do caso vários artigos referiram o activismo do assassino, com alguns até a chamar Rivers de herói. Não é então surpreendente que mesmo dentro da nossa comunidade este padrão se repita. Mas essa é só uma das maneiras em que a comunidade LGBT falhou o L.

Em primeiro lugar, temos a demora por parte das maiores fontes de notícias LGBT em reportar o sucedido. Apesar de este crime datar do dia 11 de Novembro os primeiros artigos que começaram a circular sobre o mesmo vêm todos de sites de notícias não especificamente focados em temáticas LGBT e portanto em difundir informação pela mesma.

Um dos primeiros artigos que começou a circular pela comunidade lésbica veio da ABC News, publicado pela primeira vez a 15 de Novembro. Outro exemplos que surgiram no mesmo dia são os artigos de The Mercury News e da CBS San Francisco.

Talvez não surpreendentemente, um dos primeiros sites LGBT a falar deste crime foi a publicação conhecida como GenderTrender, que não disfruta do mesmo estatuto ou visualizações de sites como Autostraddle, Pink News ou as Queer Voices do Huffington Post.

Pink News publicou um artigo só no dia 17 de Novembro. Já do Huffington Post e das suas Queer Voices nada se ouviu até hoje. Claro que para quem se lembra que o HuffPost está por detrás da brilhante ideia de filmar lésbicas a tocar num pénis pela primeira vez, então o facto desta publicação ainda não se ter insurgido contra um caso de violência lesbofóbica provavelmente não virá como um choque.

Dando crédito onde é devido a Autostraddle publicou o seu artigo sobre o caso no dia 16, tal como o site GenderTrender. Claro que, foram também o único site (que eu saiba) que fechou a sua secção de comentários, mas não sem antes se ter dado ao trabalho de eliminar todos os comentários de lésbicas que tendo conhecimentos básicos de biologia e sociologia, apontaram que o coração podre e desprezável deste crime bate ao ritmo dos padrões típicos de violência masculina.

autostraddleisshit

O que me leva à outra faceta que torna este caso ainda mais difícil de engolir –o facto de Rivers ser tratado por todos inquestionavelmente como uma mulher.

Rivers nasceu como membro do sexo masculino. Durante anos viveu como homem, foi socializado enquanto homem e isso não desparece magicamente só porque se passou a identificar como mulher trans, só porque mudou de nome. Mesmo cirurgia e tratamentos hormonais não alteram a realidade, não fazem nada para mudar o facto de que Rivers não é uma mulher –e aqui refiro-me a mulher como um indivíduo adulto do sexo feminino.

A opressão com base no sexo é uma realidade inquestionável e todas as crianças, dependendo do seu sexo, são socializadas de maneiras diferentes, de acordo com expectativas diferentes. Se por um lado crianças do sexo masculino são encorajadas a praticar desporto, crianças do sexo feminino são levadas a actividades menos extenuantes e representativas da maternidade. Claro, isto é um exemplo muito básico, ainda que endémico, do processo de socialização porque todos passamos e que é fundamental à manutenção da patriarquia: raparigas aprendem a ser submissas e rapazes aprendem a dominar. Esta dinâmica manifesta-se de mil e uma maneiras na nossa sociedade.

Não faz então sentido dizer que homens e mulheres trans estão de alguma maneira imunes ao processo de socialização, pois são criados na mesma sociedade que pessoas ditas ‘cis’ (um conceito de si ridículo, mas mais sobre isso noutra altura).

Comparativamente a homens é incrivelmente raro para uma mulher matar, e ainda mais raro para uma mulher matar várias pessoas.

Isto não é uma teoria, é um facto. Tal como é um facto que Rivers é, biologicamente, um homem.

Abaixo estão estatísticas que demonstram a qualidade pandémica da violência masculina.

fbisourceonmurderstats

(Tabela 1)

homicidestats2

(Tabela 2)

Não é de todo comum uma mulher (indivíduo adulto do sexo feminino) cometer este tipo de crime, crime esse que foi executado e de uma forma tão violenta que envolveu esfaquear e balear (daí o realce das estatísticas para homicídios em que uma arma foi utilizada).

E caso essas estatísticas não cheguem para convencer, fica aqui um excerto de um estudo realizado na Suécia que pretendia analisar a longo prazo os efeitos de cirurgias de mudança de sexo:

“Second, regarding any crime, male-to-females had a significantly increased risk for crime compared to female controls (aHR 6.6; 95% CI 4.1–10.8) but not compared to males (aHR 0.8; 95% CI 0.5–1.2). This indicates that they retained a male pattern regarding criminality. The same was true regarding violent crime.”

O problema de tratar o Rivers como uma mulher é precisamente o facto de obscurecer a questão da violência masculina. Estas políticas de identidade e respeitabilidade estão a retirar às mulheres a sua capacidade de nomear os seus opressores; a nossa linguagem está a ser manipulada ao ponto de se tornar virtualmente inútil e sem significado. Têm sido registado um aumento de violência entre mulheres que está ligado precisamente a este abuso da linguagem. Também este crime vai ser classificado como violência entre mulheres quando obviamente não o é. As repercussões disto são gravíssimas para nós, mulheres.

As nossas asserções do óbvio, da realidade biológica, da opressão com base no sexo, tudo isso é tido como infundado, irracional e transfóbico. E a estas acusações seguem-se tentativas de silenciamento.

Por exemplo, o que infelizmente aconteceu com o site português de notícias LGBT, Dezanove.

Abordei-os pelo Twitter para saber se tinham ouvido do que tinha acontecido a esta família e pediram-me para explicar o caso, coisa que fiz assim que pude, com todos os detalhes e fornecendo fontes para tudo. Expliquei ainda o estado de desânimo e, sim, da raiva que a comunidade lésbica sentia pelo facto de um crime contra um casal lésbico e a sua família não ter recebido quase atenção nenhuma. É de notar que na minha descrição do caso usei sempre pronomes masculinos para o Rivers, porque me recuso a ser cúmplice no encobrimento de violência masculina. Ninguém me apontou este facto, ninguém me questionou acerca disso. Em vez disso pediram-me para escrever o artigo sobre o caso, pois nas palavras do indivíduo com quem falei “é fundamental denunciar a violência contra as mulheres e a lesbofobia”. Aceitei o convite, e tal como anteriormente usei pronomes masculinos para o assassino. Depois de ter enviado o artigo responderam-me a dizer que este iria ser publicado depois de ‘alterações mínimas’.

Claro que no corrente clima pensei logo que iam mudar os pronomes, mas como isso não seria ‘mínimo’ e como ainda não me tinham dito nada sobre isso decidi não saltar a conclusões.

No dia a seguir vi que sim, tinham mudado os pronomes do Rivers para o feminino e que tinham suavizado a minha linguagem nalgumas passagens. Dizer que fiquei irritada seria um eufemismo extremamente generoso. Não se mexe com as palavras de uma pessoa dessa maneira. Apesar disso, achei que já era bom que o caso fosse exposto e tivesse a oportunidade de entrar para a consciência do público. Por isso, escrevi um email a pedir que fosse apenas retirado o meu nome e explicando o porquê de não querer o meu nome associado a algo que não representa as minhas convicções. O nome foi de facto retirado, juntamente com o artigo.

dezanovetwitter

(O que resta do artigo)

Não pensei que estivesse a pedir muito. Afinal de contas, se o artigo foi considerado aceitável, se antes do meu email não havia qualquer problema em ter o artigo no site, não percebo porque é que subitamente passou a ser um problema. Dei a minha autorização para que o artigo permanecesse no site, fui muito explícita nisso, por isso não podia ser esse o problema.

Assim, e não tendo recebido qualquer outra explicação, resta-me concluir que o problema é o mesmo que já tinha levado à comunidade LGBT dos EUA a não prestar atenção a este caso: Para não variar à um esforço colectivo da nossa dita ‘comunidade’ em proteger o T à custa do L –subitamente denunciar lesbofobia deixa de ser importante se põe em causa um dos pilares intocáveis da ideologia do T.

O meu problema não é com a comunidade trans. E não acredito que tenho de dizer isto para que haja a possibilidade de ser levada a sério, mas eu estou ciente que nem todas as mulheres trans são assim. Eu sei disso porque vivo na realidade. O problema aqui é a socialização masculina, as dinâmicas que cria e a violência que daí pode resultar. É isto que não podemos esquecer. É isto que não podemos ignorar quando falamos de casos como o de Rivers.

Fontes:

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